A memória das sementes


Este ano, as primeiras pequeninas aboboreiras a chegar à terra foram as que nasceram sozinhas, de forma espontânea, no compostor. Na verdade, nasceram no compostor do nosso vizinho de horta, que tem perto de 80 anos (o vizinho, não o compostor) e que já não consegue lembrar-se bem de qual terá sido a origem geográfica das sementes. Sabemos que, se tudo correr bem, delas hão-de nascer umas abóboras gigantes, algumas de 40 quilos, como aconteceu em anos anteriores.

O nosso vizinho de horta acredita que as pequeninas aboboreiras que hão-de dar grandes abóboras são descendentes daquelas que a mãe dele trouxe há muitos, muitos anos, algures da Beira Alta. Perdeu-se um pouco a memória da origem destas sementes, mas só para nós, humanos. De perdidas, elas não têm nada.

São assim as sementes, como as heranças mais preciosas. Não se compram nem se vendem, acabam por ser património de todos e ganham novos sentidos quando partilhadas. Trazem em si memórias que nunca se perdem. Dizem-nos todos os anos que tudo o que nasce da terra da terra é. Nós e os nossos vizinhos de horta e de Terra somos apenas os zeladores e transmissores deste património infinitamente rico. E não patenteável.


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